quarta-feira, 24 de março de 2010

"Antígona" em cena na sexta feira no Porto

Povoada de seres desafiadores que tentam escapar inutilmente ao seu destino, "Antígona", a mais política das tragédias de Sófocles, chega ao Teatro Nacional São João (TNSJ), no Porto, na próxima sexta-feira, às 21h30, permanecendo, para já, até domingo. Quando tomou entre mãos o projecto de levar à cena "Antígona", Nuno Carinhas, director artístico e encenador residente do TNSJ, tinha perfeita noção de que estava a lidar com um texto nuclear da dramaturgia universal, mas confessa ter sido surpreendido "pela construção ainda hoje moderna, tanto na temática como na estrutura". Por isso, encontrar elementos contemporâneos numa história onde as leis dos homens e as dos deuses são colocadas em permanente confronto não foi uma tarefa complicada, até porque a insubordinação e a revolta continuam a deflagrar um pouco por todo o lado, mesmo na Grécia actual, 2500 anos depois do texto original. Carinhas, que diz ser ainda de "um "tempo antígono, em que a anarquia ainda soava a nobreza de carácter quando confrontada com o poder absoluto, perigoso e pouco respeitador das liberdades individuais e colectivas", coloca o acento tónico na actualidade permanente da mensagem sofocliana. "A heroicidade de Antígona não está fora de moda", defende. Atmosferas políticas e contestatárias à parte, "Antígona" move-se sobretudo no plano individual, com o questionamento sobre as fronteiras da integridade individual e do bem comum. Esta é também a visão de Maria do Céu Ribeiro, que volta a interpretar o papel de Antígona muitos anos depois de ter integrado o elenco de "Antes que a noite venha", de Eduarda Dionísio. "Antígona é, sobretudo, um ser muito solitário. As razões que a levam a agir desta forma desafiadora são de tal forma essenciais que não pode deixar de as fazer", diz. "Tratado sobre a democracia" que veicula uma visão depreciativa dos detentores dos cargos públicos, a tragédia com a qual Sófocles interpela tanto o plano político como religioso aparece, na versão de Carinhas, com uma cenografia (também da autoria do director do TNSJ) que não deixará ninguém indiferente. O palco, que tanto pode remeter para um espaço desértico como lunar, acentua essa própria lógica de confronto, ao assemelhar-se a "um tribunal em arena", no qual as personagens digladiam argumentos ferozes que ganham eco neste espaço concentracionário. Os espectadores, esses, são impelidos a assumir o papel de membros atentos da assembleia, como se também fossem cidadãos de Tebas. "O semicírculo do anfiteatro que limita o palco completa o desenho do teatro e, assim, aprisiona-nos no mesmo espaço circular", afirma Alexandre Alves Costa, arquitecto que colaborou na definição do espaço. Em cena até domingo, a peça regressa ao São João entre os dias 9 e 23 de Abril. Cumprida a apresentação portuense, "Antígona" vai passar por Viseu (Teatro Viriato, nos dias 29 e 30 de Abril), Bragança (Teatro Municipal, a 8 de Maio) e Vila Real (Teatro Municipal, a 14 de Maio).
Fonte: JN

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