Documentário sobre Raul Solnado hoje na RTP1
Era um projecto a dois, "mas o maroto foi-se embora antes", fez saber Patrícia Vasconcelos, autora de "O Meu Raul", à data da apresentação deste trabalho, que a estação pública exibe hoje em horário nobre, o qual revisita a vida do artista de forma inspiradora. Fez o favor a si próprio de ser feliz até ao derradeiro dia. Raul Solnado, pois então. E é justamente essa a ideia que perpassa da homenagem documental que a amiga lhe fez. Hesitou. O combinado era ser uma viagem a dois pelas ruas de Lisboa, aquelas que o acolheram ao longo de 79 anos. A morte pregou mais uma das suas partidas e Patrícia Vasconcelos ponderou desistir. "Mas não podia fazer isso ao Raul", disse. Avançou. E com a proeza de, mesmo sem Raul Solnado entre nós, pô-lo a ele a narrar o filme. "Era uma grande responsabilidade sobre os ombros, nunca tinha feito nada enquanto realizadora", comentou. "Pensei para mim que não teria coragem. Chorei, desesperei, mas devia-lhe isto". E "orgulho" foi a palavra a que recorreu por o "ser ele quem conta a própria história", o que só foi possível através de imagens de arquivo do canal do Estado e graças a um minucioso jogo de montagem que mais parece um puzzle, em que as peças acabam por se encaixar na perfeição. A filha de António Pedro Vasconcelos, consagrado realizador português, conhecia Solnado desde os 10 anos. "Foi uma amizade que se solidificou, sobretudo, nos últimos 15 anos". A sua relação era também profissional. "Ainda no outro dia me pediram um actor pequenino, idoso, com carisma para um casting e não parava de me vir à cabeça o nome do Raul". Emocionada, concretizou: "Não há personalidade e pensamento como o dele". Algo que todos os presentes no visionamento do documentário subscreveram pela expressão que carregavam no rosto: uns familiares, outros nem tanto, entre lágrimas acompanhadas pelo esboçar de sorrisos cúmplices. Afinal, o resultado do filme não é de todo lamechas. Também Raul não o era. "O talento prescreve, envelhece se não for trabalhado". Esta é a frase pertencente a Raul que se pode ler no final do documentário. Antes, o pano cai, primeiro com os seus entes mais próximos e amigos a entoar o tema "Malmequer", que lhe era tão caro, e depois com ele a despedir-se. Isto após se ter navegado pelos tempos do "Zip Zip", pelo alcançar do sonho que foi ter erigido o Teatro Armando Cortez, ou pela altura de uma gaguez aguda, aquela que assinalou o pontapé de saída da sua carreira. "Recuso-me a ter uma visão catastrófica. Promovam o riso, prestigiem-no. Deixem-me rir, deixem-me chorar. Quero emocionar-me", é outra das mensagens mais fortes. Além de dois dos filhos e da neta Joana Solnado, muitas figuras públicas compareceram nesta espécie de ante estreia. Entre elas Rui Mendes, Manuela Maria, Vítor de Sousa ou Rogério Samora. No fim, uma clamorosa ovação provou a Patrícia que o trabalho passara num importante crivo, o dos que amavam Raul. "Gostaram?", perguntou com humildade aos jornalistas que assistiram. "Descobri ainda mais facetas dele neste processo. Foi uma viagem solitária, mas cheia de espírito positivo", partilhou. "Missão cumprida" foi a sensação que, enfim, Patrícia pôde subtrair.Fonte: JN
Sem comentários:
Enviar um comentário