domingo, 28 de fevereiro de 2010

Nova peça com Margarida Vila Nova

Num intervalo da guerra, o príncipe de Homburgo deambula sonâmbulo pelos jardins, sendo alvo de troça dos que o rodeiam. Entre o sonhos e a realidade, o príncipe prefere os sonhos e aí reside a origem da sua tragédia. Como se pode ser um herói quando se vive num mundo caótico e não se tem capacidade interior para lidar com ele? Este é o mote para a peça "O Príncipe de Homburgo", da autoria do dramaturgo alemão Heinrich von Kleist (1777-1811), que ontem se estreou no Centro Cultural de Belém, em Lisboa. A ideia partiu da escritora Luísa Costa Gomes, que, em parceria com António Pires, adaptou o texto e o entregou às mãos dos actores João Ricardo, Luísa Cruz, Margarida Vila Nova, João Ricardo, entre outros. "Fascinou-me a concepção do mundo de Kleist, a sua mestria na encenação das relações humanas", explica Luísa Costa Gomes. Num cenário com poucos elementos cénicos, oito personagens movem-se numa coreografia contida onde as esperanças, os sonhos, as alianças e os desejos vão sendo pouco a pouco destruídos pela voragem dos acontecimentos exteriores. O actor Graciano Dias interpreta o príncipe de Homburgo e Margarida Vila Nova, a princesa de Orange, sua amada e a voz que o chama à razão. Para a actriz, esta experiência é algo que "está a preencher um vazio enorme que sentia, pois representa um grande desafio, uma aprendizagem e uma luta diária com o texto e comigo mesma". "A peça vive muito das imagens para onde as palavras de Kleist nos transportam", diz António Pires. "Daí que toda a construção da dramaturgia tenha de ser muito cuidada, muito depurada, pois tudo se joga na palavra e não tanto na interpretação dos actores. A palavra é a grande protagonista desta peça", afirma. Este protagonismo dado à palavra de Kleist obrigou a um grande trabalho de preparação dos actores, sobre o qual Vila Nova refere que foi "um momento fundamental para abandonar certas muletas e fingimentos trazidos do trabalho em televisão. Aqui, cada palavra tem de ser sentida e dita com consciência e com verdade". E como espera ser recebida por um público tão diferente daquele que a acompanha nas telenovelas? "É uma exposição que me apavora , mas o facto de estar acompanhada por actores tão extraordinários deixa-me mais tranquila", conclui. Posicionando-se entre a tragédia e a comédia, O Príncipe de Homburgo é uma obra diferente no contexto da obra de Kleist. Porém, tanto Luísa Costa Gomes como António Pires, ambos com um longo percurso artístico no campo de dramaturgias mais humorísticas, optaram por a fixar num registo mais sério e formal. "O facto de os personagens viverem dentro de um ridículo do qual não estão conscientes mostra-os ainda mais frágeis; uma peça que vive dos paradoxos entre a emoção e a razão é profundamente humana e este registo pareceu-nos o que melhor respeita a profundidade do universo deste autor", explica a escritora. À margem, haverá uma mesa redonda em que estarão presentes os dois encenadores, e que terá a obra de Kleist como tema.
Fonte: DN

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